Tags

, , , ,

Paralele

Essa é uma pequena homenagem àqueles que conseguem enxergar nas coisas muito mais do que são. O paralelepípedo também traz à tona memórias de dias cheios de encanto e, apesar de rústicos, também podem virar poema:

Como em todos os anos, no Dia dos Finados, em novembro passado, fui ao cemitério da vizinha cidade Piratininga (resido em Bauru) depositar flores e orar pelos meus familiares ali sepultados. O carro trepidava na rua de paralelepípedos. Parecia a prantear alguma coisa. A vibração das rodas nas pedras me envolveu. Tremi. Emoção? Encostei o carro. Com as flores nos braços, caminhei 200 ou 300 metros até a necrópole a pisar nos paralelepípedos. Os mesmos calhaus que pisei na minha infância e adolescência. Testemunhas das minhas molecagens, dos meus namoricos e do meu futuro romântico que aconteceria. Saudade dos meus mortos bateu forte na cabeça, n’alma e no coração. Mamãe, papai, irmãos e amigos que falam comigo nos sonhos e nas recordações. Telas do meu passado na rua de paralelepípedos que tinha um campo de futebol ao lado onde eu jogava bola. Um grande perna-de-pau. Mas a saudade começou a jogar bem nas minhas lembranças.

De repente, descobri que a saudade é topar uma esquina, vê-la bloqueada e, ao sentir-me impedido de dobrá-la, chorar sabendo que o pedaço maior do coração ficou do lado de lá. Saudade é o lamento do sino a golpear-se no silêncio que só os ponteiros das horas ouvem e contam. Que só machuca quem se esconde nas sombras das suas ansiedades. Descobri também que não foram os céus que a inventaram. O homem concebeu a saudade para lamentar as suas perdas. Uma vereda para a fuga das suas angústias. Nostalgia é supor-se afastado dos Oásis da vida. É sentir a sede de todos os desertos. Saudade é a chave mestra que abre qualquer entrada. Só não abre a porta da esquina topada…

Os paralelepípedos continuam lá. Que nunca sejam removidos. Cada bloco é um capítulo da história dos cidadãos de Piratininga. Quantos passaram por eles narrando seus tropeços, suas glórias, dores e saudade? Quantas pessoas vivificaram e ainda despertam memórias a provocar lágrimas e risos? Rua revestida com pedras ásperas, largura de 18 a 23 cm e altura 12 a 24 cm, pesando entre 8 e 10 quilos por peça, é como um leve tapete ao longo de presenças e ausências a lembrar heróis e anônimos que neles pisaram e pisam suavemente.

Rua do cemitério. Paralelepípedos sempre a contar os que por eles desfilaram com soluços silenciosos em cada pedra pelos que não voltaram. A saudade é um ai baixinho em todos os instantes na rua atapetada com paralelepípedos… Como a rua de Piratininga até o berço da eternidade.

O autor, Munir Zalaf, é escritor e palestrante voluntário, membro da ABLetras.

Anúncios